O surgimento de um deus
O samba animava o povo que dançava na avenida, enquanto a escola, com suas fantasias luxuriosas, evoluía qual uma serpente multicolorida. Carros alegóricos mostravam corpos femininos e masculinos em toda sua exuberância, tendo como tentativa de esconder (ou seria realçar?) mínimos detalhes íntimos; pequenas alegorias rebuscadas em pedrarias e plumas. Nos rostos, sorrisos plastificados mostrando pérolas clareando as bocas, e olhos brilhantes de onde partiam raios lúbricos em todas as direções, tentando atingir o coração mais próximo. Sob aquelas fantasias desenvolviam-se sonhos, alguns impossíveis, outros irrealizáveis, mas alguns possíveis. Sob a garoa fina que refrescava os corpos em movimento, a energia emanada desses milhares de sonhos inebriava e irmanava a todos. O conjunto, representante de uma festa pagã, parecia-se mais com um ritual religioso, repleto de anjos de todos os matizes, dispostos a trazer alegria, descontração, felicidade. Durante o desfile, ao som inconfundível da bateria, colorida pelos puxadores de som, todos eram apenas almas puras e bondosas, misturando à sua própria, a felicidade espalhada por todos os lados.
Apenas um anjo não compareceu naquela noite.
Ele vestiu-se de plumas, realçou o corpo esculpido durante todo o ano na academia, evidenciou com um minúsculo tapa sexo o membro do qual sempre se orgulhara e enfeitou as costas com longas asas de penas de pavões albinos. Sobre a cabeça, realçando o rosto de perfil grego e másculo, uma armação equilibrava uma espécie de capacete grego, enfeitado por plumas douradas, aumentando seu um metro e oitenta e dois de altura. Olhou-se ao espelho e gostou do que viu. A imagem refletida mostrava um homem em todo o esplendor dos quarenta anos, transformado num belíssimo anjo guerreiro, cujas coxas, definidas em infindáveis exercícios, suportavam um corpo escultural. Sorriu satisfeito. Mas seus olhos não corresponderam àquele sorriso que, logo, se apagou.
Sentiu certa lassidão e tentou explica-la pela expectativa que acomete a todos antes do desfile. Recostou-se num sofá confortável, esticou as pernas e deixou a cabeça pender para trás, tomando cuidado para não estragar as plumas. Entrecerrou os olhos para um minuto de descanso, ainda a tempo de perceber a magnífica figura, ainda mais bela que ele, se aproximando lentamente, como se viesse flutuando.
A fantasia que cobria o corpo hercúleo do novo personagem ganhava em riqueza, em colorido e em exuberância. Sua disposição sobre o corpo evidenciava toda a musculatura, transformando-o num ser totalmente erotógeno, provocando delírios sensuais. Desejou-o com toda sua alma, cerrou os olhos e entreabriu os lábios como se aguardasse um beijo de amor.
Em segundos, o Eros recém aparecido foi tomando-o em seus braços, fazendo com que ele sentisse todo o seu corpo sendo envolvido e amalgamado ao corpo ansiado. Sentiu um leve sopro sobre seus lábios entreabertos que se foram umedecendo à medida que se uniam ao outro em um beijo doce e ardente. Totalmente abandonado àquela paixão inexplicável, já nem se lembrava que lá fora era carnaval e que outras pessoas o aguardavam para compor um carro alegórico.
Sentia-se cada vez mais relaxado, embora todos os seus sentidos estivessem em estado de alerta para saborear cada centímetro daquela pele que se colava à sua. Pouco a pouco, ambos os corpos foram se fundindo, as fantasias se transformando em uma e os corpos magníficos transformando-os em um novo deus capaz de provocar iras e ciúmes no Olimpo.
E assim, aquela figura divina foi se elevando no ar e, completamente orgulhosa do novo ser criado pelo amor, saiu flutuando pela pequena janela. Pairou alguns segundos sobre a escola que ainda evoluía na avenida para, em seguida, tomar o rumo das estrelas. O samba que animava os foliões foi, pouco a pouco, sendo substituído pela música dos astros que iluminam o infinito...