Janelas do Zeca


 

 

O QUE VOCE FAZ PARA ACABAR COM O ANALFABETISMO NO BRASIL?

 

Não é nada fácil falar sobre esse tema, já que as ações para acabar com o analfabetismo no Brasil sempre foram bastante controvertidas. Desde o antigo Mobral, o que se vê são resultados pífios, com grande número de participantes que mal sabe escrever seus nomes. Claro que alguns casos foram exceção, mas não se trata de exceções quando se quer erradicar algum mal.

O que vemos por aí são pessoas saídas de cursos regulares, com enormes dificuldades de leitura e compreensão, além da quase impossibilidade de escrever corretamente. São praticamente analfabetos que sabem desenhar seus nomes.

A impressão é que os governantes não dão a menor importância para a qualidade do ensino e muito menos para a elevação do aprendizado, talvez preferindo manter grande parte da população na ignorância. Essa “massa” de pessoas é mais fácil de ser manipulada por discursos vazios, muitas vezes carregados de palavras de efeito, que nem mesmo os próprios políticos que as profere consegue entender.

Eu, desde criança privilegiada, costumava ensinar os coleguinhas, nas famosas brincadeiras de “escolinha”, onde levava muito a sério o “status” de professor. Depois parti para as empregadas de casa, geralmente analfabetas (pelo menos naquela época). Orgulho-me de ter ensinado várias delas a ler e a escrever, além de instigá-las à leitura. Mesmo que fosse de revistas femininas. Duas delas, com a inteligência acima da média, interessaram-se por tudo o que aprenderam e acabaram seguindo estudos. Consegui matriculá-las em escolas onde terminaram o antigo curso primário, obtendo o certificado de conclusão que as habilitou a matricular-se no antigo ginasial. E dali, seguiram adiante.

Uma das últimas empregadas que ensinei, trabalhou em casa durante muitos anos e nunca aceitou freqüentar uma escola regular. Eu já morava sozinho nessa época e, no meu apartamento, havia dependências de empregada, que foram ocupadas por ela. Foi a primeira vez que ela teve um quarto e um banheiro só para ela. Quando chegou em casa, vinda diretamente do sertão ao norte de Minas Gerais. Não tinha dentes, não sabia arrumar-se e comia com as mãos, sentada no chão. Todos foram contra a sua contratação, mas alguma coisa tocou meu coração e eu a mantive em casa, a duras penas. Era dificílimo tratar com ela, que mais parecia um bicho do mato. Sua vida sempre foi marcada pelo sofrimento e pela falta de praticamente tudo, inclusive carinho. Eu a ensinei a sentar-se à mesa, a comer com garfo e faca e até mesmo a cuidar da sua higiene pessoal. Levei-a ao dentista e ela ganhou duas dentaduras que lhe trouxeram um lindo e orgulhoso sorriso ao rosto. Levei-a a uma cabeleireira que cortou e tratou seus cabelos e, finalmente, até suas mãos e pés. Enfim, ela foi se transformando e acabou desabrochando uma bela mulher. Enquanto isso, foi aprendendo também como cuidar de uma casa e de uma cozinha. Tornou-se excelente dona de casa e foi, sem sombra de duvida, a melhor cozinheira que já tive.

Em pouco tempo estávamos em aula. Ela não sabia manejar um simples lápis, mas aprendia com facilidade. Em poucos meses aprendeu a ler e a escrever bastante satisfatoriamente. Também fazia contas como ninguém, sem maquina de calcular. Cheguei a matriculá-la em escolas regulares por três vezes. Em todas, ela abandonou a classe depois de três ou quatro aulas. Mas comigo ela se soltava e aprendia.

Após um ano, ela não só tinha adquirido uma bela aparência, sempre bem vestida e muito sociável, como havia conquistado todas as pessoas que freqüentavam a minha casa. Era alegre e carismática e tornou-se responsável por tudo, inclusive pelas compras e manutenção geral. Eu não me preocupava com mais nada. Até o cardápio ficou por conta dela. Comprou um caderno onde anotava receitas, com letra bonita e sem erros. Tinha também uma lista com todos os nomes e telefones dos profissionais prestadores de serviços de manutenção e atendia ao telefone como se fosse minha secretária.

Conheceu a Igreja Universal e tornou-se evangélica. Pediu minha ajuda para entender os textos da bíblia e, com o tempo, foi se tornando importante no rebanho, passando a obreira e outras classificações da igreja, que agora não me vêm à cabeça. Chegava a fazer leituras na igreja e a evangelizar outros “irmãos”, sendo uma pessoa de destaque entre as demais.

Quando saí de São Paulo, ambos sofremos muito, pois havíamos construído uma amizade tão grande que essa separação forçada foi muito difícil para ambos. Mas ela seguiu seus caminhos e eu os meus. Guardo dela apenas boas recordações, muita saudade e o carinho mútuo que sempre tivemos, um pelo outro. Além do orgulho em acompanhar a transformação, relativamente rápida de um bicho do mato em uma mulher bonita e elegante. Tive a sorte e o prazer de sentir o próprio “efeito Pigmalião”.

No mais, sempre estimulei muitas pessoas à leitura. E trago nas costas um número considerável de pessoas que passaram a ler e a interessar-se por livros, jornais e revistas graças ao meu incentivo e a certa forçada de barra. Eu não meço esforços. Empresto e até dou livros para as pessoas lerem. Mostro artigos interessantes em jornais ou revistas, instigando sua curiosidade e seu interesse.

Agora mesmo existe um rapaz que trabalha comigo, que é uma pessoa de origem humilde e trabalha com manutenção nas áreas de eletricidade e pequenas obras e reparos em casas e escritórios. Ele tem se mostrado interessado em aprender mais e eu tenho-o incentivado à leitura de livros e revistas. Ele já leu dois livros (os primeiros de sua vida) e levou outro ainda ontem. Está entusiasmado e comenta comigo o que entendeu de suas leituras. Também me pediu que o ensinasse a “mexer no computador” e eu, que não sou nenhum expert no assunto, estou ensinando o que posso. Já sabe algumas coisas e tem até uma conta no Orkut. Confesso que eu mesmo não entendo muito bem o funcionamento do Orkut, mas ele está se virando e trocando idéias com outros amigos.

Ele não é exatamente um caso de analfabetismo, mas quase. Lia com dificuldade e não tinha o hábito da leitura. Para anotar um pequeno orçamento, escrevia errado e até errava nas contas. Agora, após alguns exercícios de caligrafia e leitura, tem se esmerado em suas anotações, com uma letra mais legível e menos erros ortográficos. Claro que ainda erra bastante, mas aos poucos estará errando menos e sentindo-se mais integrado à sociedade.

Sei que essas ações não chegam nem perto do ato de “acabar com o analfabetismo no Brasil”, mas são ações eficazes que reduzem, por mínimo que seja, o número de analfabetos neste país onde, basta saber desenhar o próprio nome para ser considerado oficialmente alfabetizado. E todos sabemos que não é exatamente assim.

 



Escrito por ozeca às 15h04
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