Nas últimas semanas tenho feito algumas pequenas viagens, que têm atrapalhado um pouco as minhas rotinas, prejudicando também a preparação de textos para publicar aqui. Tenho aproveitado alguns momentos de descanso para, em cybercafés, visitar blogues amigos. Mas logo termino essa via sacra e volto à minha tranqüilidade. Por enquanto, para não espaçar muito as atualizações destas janelas, aproveito alguns contos dos quais gosto, para republicá-los. Alguns (poucos) já os leram. Outros ainda não.
Visões Mitológicas
Não resistindo ao chamado de Eurídice, que havia acabado de resgatar do inferno, Orfeu olhou para trás e perdeu-a para sempre.
José vivia sem olhar para trás, para que as dores não se perpetuassem e as feridas cicatrizassem. Não queria perder o que restava do seu amor. Guardava no coração a imagem de Maria, suas noites de amor, seus gemidos de prazer, a maciez do toque de suas mãos, o calor provocado por seu olhar. Sabia que suas vidas haviam evoluído como passos de tango, onde ela se deixara seduzir pelos seus braços potentes, que a dobravam e a desnudavam. Fazendo-a deslizar, pernas unidas, sexos clamando por satisfação, a sensualidade à flor da pele. Suas mãos a tocavam como se seu corpo fosse um instrumento de cordas, delicada e decididamente. Faziam-na vibrar, delirar de prazer como música tocada com o coração. E ele tocou suas vidas assim, como músico boêmio, sedento de prazeres, de emoções.
Um dia, não a encontrou à sua espera, à sua disposição.
Percorreu como louco, ruas, praças, becos, bares, boates, infernos. Fez de tudo um pouco, sem poupar esforços nessa busca que se perpetuava enquanto o tempo, inexorável, corria frenético. Até que a encontrou. Amasiada a um cafetão, sustentando-o e aos seus vícios todos. Tentou convencê-la, negociou, tentou até mesmo comprá-la, mas de nada adiantou. A cada conversa, a cada acusação ou jura de amor eterno, ouvia que não devia olhar para trás, que devia seguir sua vida e deixá-la se consolando com seus próprios demônios.
Resignado, voltou ao seu mundo, à sua vida também repleta de demônios, outros, que não lhe permitiam um sono tranqüilo. Continuava tocando à noite e arrebanhando seguidoras que com ele queriam formar nova dupla de tango. Mas nenhuma lhe servia. Apenas Maria, cujo gosto não conseguia esquecer. Seu cheiro impregnado em seu corpo o perseguia, suas curvas, tantas vezes moldadas por suas mãos não o deixavam em paz. Já não sabia mais a distinção entre convicção e esperança. Sabia apenas que a queria de volta. Vivia no centro de um pesadelo e tentava reinventá-lo, com sua amada em seus braços, entre suas pernas, sob seu corpo. Sabia que apenas sua lembrança a mantinha viva em seu coração.
Num clarão luminoso, viu-a descendo delicadamente, vinda diretamente do céu, com asas de anjo. Sentindo-se o mais venturoso dos mortais, sorriu e levantou os braços para ampará-la, apertá-la de encontro ao peito e beijar os lábios tão ansiados e queridos. Quando os seus já sentiam o calor dos lábios de Maria, sentiu uma estocada no peito e acordou na sarjeta, atacado por quatro prostitutas que tentavam assaltá-lo num beco escuro.
José morreu ali, sem saber ao certo se havia reencontrado sua amada ou se havia novamente olhado para trás, perdendo-a para sempre, desta vez pelas mãos das prostitutas. Seu sangue escorreu pela sarjeta e seus suspiros apagaram-se sob as estrelas.
Escrito por ozeca às 11h05
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