Continuação...
Miriam e Roberto – 2ª parte
(ou o filho desconhecido)
Zorba tinha caprichado naquele dia. Depois do banho, havia passado um desodorante novo e estava estreando uma zorba nova (cuecas da Hering, de onde se originou o apelido do garoto, por ter sido o primeiro em sua turma a usar aquelas cuecas). Ele estava com mais dinheiro e pretendia convidar Miriam para se deliciarem com uma banana split numa lanchonete.
O encontro dos dois, com ela tristonha e evasiva havia cortado as expectativas dele. Aquela explosão de choro e a confissão trágica, haviam arrancado o chão de sob seus pés. Ele estava atônito, sem saber o que pensar e muito menos o que fazer. Na verdade, nem entendia muito bem tudo o que aquele desabafo implicava. Mas sabia que alguma coisa gravíssima estava mudando de vez os rumos das suas vidas e que ambos precisariam mergulhar no mundo adulto e tomar decisões. Conversaram longamente a respeito do assunto e, sem resolver nada, se despediram, marcando novo encontro para o dia seguinte.
Zorba voltou para casa arrasado. Aquela foi, talvez, a primeira noite em que ele travaria conhecimento com a insônia. Somente na segunda feira ele conseguiu encontrar-se com seu melhor amigo, o Jabur, para desabafar e aconselhar-se. Jabur e ele tinham a mesma idade e ambos eram bastante namoradores, julgando-se conhecedores de tudo sobre as mulheres. Seu amigo também se mostrou atrapalhado com a confissão e, sem saber muito bem o que aconselhar, disse que seu irmão mais velho já havia passado por um problema parecido e tudo havia sido decidido com um aborto. Ele iria perguntar ao irmão e depois decidiriam o que fazer.
À tarde, Zorba encontrou-se novamente com Miriam e conversaram bastante sobre as possibilidades que existiam. Casarem-se era impensável, pois ele era menor de idade, estava terminando o curso ginasial e não teria condições de sustentar uma família. Ela, por sua vez, ainda cursava o Normal e não trabalhava. Sua família, por outro lado, não concordaria com a opção do aborto, pois o pai era pastor de uma igreja protestante e nem imaginava que a filha já havia tido experiências sexuais com o ex noivo. Com um menino de dezesseis anos, de outra religião, seria inaceitável.
A conversa entre os dois girava em círculos, formando um labirinto que os deixava cada vez mais perdidos e sem saber por onde começar a resolver aquele problema. Miriam chorava muito e, em vários momentos, mostrou-se enraivecida, jogando para o garoto toda a responsabilidade sobre aquela gravidez. Na verdade, não vislumbravam nenhuma solução para o problema. Sentiam-se perdidos e solitários. Após algumas horas de martírio, resolveram aguardar a conversa de Zorba com o irmão de Jabur e se separaram sem ao menos se despedirem.
À noite, Jabur chegou ao colégio ansioso para contar ao amigo o que havia conversado com o irmão. Ele havia conseguido um médico, que não cobrava muito caro e já havia realizado alguns abortos em moças conhecidas, todas muito bem e sem seqüelas. A namorada do rapaz foi atendida por esse médico, não teve grandes problemas, apenas precisou dormir uma noite na casa de uma amiga e inventar uma desculpa para os pais, pois durante mais ou menos uma semana não passou muito bem e tinha dores e tonturas. Mas depois, tudo voltara ao normal e os dois continuaram o namoro, apenas tomando cuidado para evitar outra gravidez. Nenhum dos pais chegou a saber de nada.
Se Zorba quisesse, ele o apresentaria ao médico e até poderia acompanhá-los, para dar uma força.
No dia seguinte, Zorba foi encontrar-se com Miriam para discutirem essa possibilidade. Mas não foi o que aconteceu...
Continua...
Escrito por ozeca às 19h08
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