Continuação...
Miriam e Roberto – 4ª parte
(ou o filho desconhecido)
E Zorba esqueceu mesmo! Seu amigo Jabur não se conformou com a solução e avisou-o que, um dia, poderia arrepender-se dela. Mas ele não concordava e continuou seguindo seus caminhos como se nada houvesse acontecido. Meses mais tarde, foi informado pelo próprio Jabur, que Miriam teve um menino e que ele recebera o nome de Roberto. Sairam uma tarde, de carro, e passaram perto da casa onde Miriam morava, mas não viram ninguém e tudo seguiu como sempre. Algum tempo depois, soube que a família havia se mudado e que os vizinhos não sabiam para onde. Zorba e Jabur foram até o bairro, perguntaram pela vizinhança, mas o pastor não deu o novo endereço para ninguém. Nessa ocasião confirmaram o nascimento do filho do pastor e até mesmo o nome dado a ele. E só.
Nunca mais se soube nada daquela família!
Zorba e sua turma tiveram uma linda festa de formatura do ginásio. Ele resolveu cursar o Clássico, pois queria ser advogado. Acabou fazendo também o Curso Normal, sem concluí-lo. Mas nunca mais pensou em Miriam ou em Roberto. Deixou de ser Zorba, teve vários apelidos e outras namoradas, acabou fazendo faculdade de economia e pós graduação em administração de empresas. Casou, descasou e nunca mais teve outro filho. Pelo menos é assim que ele pensa.
Depois de formado, passou a ser Carlos. Do Zorba, manteve a alegria e a simpatia. Continuou sendo popular e querido, o que originou muitas brigas por ciúmes e atrapalhou vários relacionamentos. Mas ele nunca quis deixar de ter esse espírito comunicativo e foi seguindo seus caminhos.
Carlos construiu uma bem sucedida carreira de executivo em um grupo multinacional. Quando estava com trinta e poucos anos, abriu um processo de seleção para dois assistentes que entrariam como estagiários. Apareceram vários candidatos e ele começou a avaliar as fichas que o setor de recursos humanos selecionava. Um dos candidatos se chamava Roberto e tinha a idade certa para ser o filho que ele não conhecia. Nervoso pela primeira vez em tantos anos, marcou uma entrevista com o rapaz. Durante a entrevista procurou descobrir mais sobre as origens do rapaz, seus pais e onde morava. Acabou concluindo que não era possível que fosse a mesma pessoa, mas a partir daí a semente da dúvida já se instalara em seu coração. O passado retornava com suas cobranças e seus fantasmas. E o rapaz, por via das dúvidas, não foi contratado.
Carlos passou um período em que essa história lhe fazia mal. Teve vontade de procurar, mas acabou imaginando que, se tudo houvesse sido feito conforme o pastor havia delineado, o seu filho não teria a menor idéia do seu passado verdadeiro e nem poderia imaginar que era filho da própria irmã. Valeria a pena escarafunchar esse assunto, trazer essa verdade à tona e, talvez, prejudicar a vida do rapaz? Será que Roberto teria condições psicológicas para saber a verdade e enfrentá-la, depois de tantos anos? Não seria melhor deixar tudo como estava e, se um dia, por vontade da própria vida, surgisse a oportunidade, então veria o que fazer? Carlos chegou a fazer terapia para discutir esse assunto e, com a terapeuta, acabou achando melhor deixar tudo como estava, pois tudo havia acontecido há tantos anos que talvez agora acabasse se transformando num problema muito maior do que na própria época daquela gravidez não planejada.
E assim, novamente, Carlos deixou sua vida seguir seu curso. Aliás, mudou de vida, trocando a carreira de executivo pela vida de comerciante. Trocando a vida na louca São Paulo pela tranqüilidade de Paraty. E assim acabou deixando também de ser Carlos e se tornou apenas Zeca. Que convive até hoje com essa história mal resolvida. Mas que ainda não tem a menor idéia de qual seria a melhor solução.
e a continuação desta história é feita pela própria vida dos envolvidos...
Escrito por ozeca às 18h54
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Continuação...
Miriam e Roberto – 3ª parte
(ou o filho desconhecido)
Miriam chegou mais segura e sem os olhos inchados pelo choro. Estava até um pouco menos nervosa. Contou para Zorba que, na noite anterior, os pais a apertaram até que, desesperada, havia contado toda a verdade. Sem nenhuma mentira. Houve o sermão habitual, o choro da mãe e o desapontamento do pai, alguma discussão sobre o que se poderia fazer, até que o pai, colocando um fim naquele outro labirinto em que estava se transformando o assunto, pediu-lhe que convidasse Zorba para uma visita e uma conversa.
Zorba era ainda um garoto, mas era responsável e corajoso e nunca havia fugido às suas responsabilidades. Não seria agora que o faria pela primeira vez. Assim, foi com Miriam até sua casa, para ter logo essa conversa com o pai dela, disposto a tudo, até mesmo a casar-se com a garota. Claro que no seu interior, um enorme medo do desconhecido queimava como uma fogueira desgovernada. Mas seus pés o levaram e seu coração descompassado se preparou para o que desse e viesse.
O pastor recebeu-o com simpatia e pediu à filha que os deixasse a sós. E foi direto ao assunto. Disse ao Zorba que sua filha, cinco anos mais velha, era maior de idade e já havia tido experiências sexuais antes de conhecer o garoto. Disse também que ela mesma havia dito que não pensava em casar-se com Zorba, pois o que sentia por ele não era tão forte. Disse também que sua família, evangélica, nem ao menos podia pensar na possibilidade da realização de um aborto. Logo, a moça levaria adiante a gravidez e a criança nasceria. Zorba ouvia tudo isso assustado com o que estava por vir, mas não fraquejou. E nesse ponto, o pastor entrou com a sua proposta ao rapaz.
Ele disse imaginar que, até aquele momento, o garoto não houvesse conversado com seus pais. Quando Zorba assentiu, ele disse que era melhor assim, pois quanto menos pessoas soubessem da história, melhor seria para resolvê-la a contento para todos. Então, sua proposta era a seguinte: a filha teria a criança, que seria registrada como filha do pastor e sua mulher, portanto, como irmã da mãe. Eles cuidariam de tudo e Zorba só deveria ficar calado, manter tudo aquilo em segredo e nunca mais procurar Miriam e muito menos saber noticias dessa criança. A criança nunca saberia que seus pais eram outras pessoas e cresceria perto dela, que cuidaria do filho como de um irmão mais novo.
Tudo aquilo estava deixando Zorba zonzo e sem saber o que dizer. Por um lado, sabia que era responsável por aquela criança, mas por outro, a solução oferecida pelo pastor punha um fim em todas as angústias que o consumiam naqueles dias. Ninguém ficaria sabendo de nada, ele procuraria fazer de conta que tudo aquilo não passara de um pesadelo e continuaria tocando sua vida como sempre, com alegria e rodeado de amigos e namoradas. Não precisaria parar de estudar, nem de trabalhar para sustentar uma família e tudo estaria resolvido, sem danos para nenhum deles.
Pelo menos era essa a visão que o egoísmo próprio dos jovens lhe permitia ter do assunto. Era a prepotência de um garoto classe média, que não queria privar-se de sua vida confortável e sem problemas, que não lhe permitia visualizar o futuro. Fácil assim: essa criança seria apenas um sonho mau que ficaria esquecido no passado e nada mais importaria. E Miriam? Ora, ela veria a criança crescer e poderia até cuidar dela. Como irmã, claro! Mas que importância tinha isso? Um dia ela poderia encontrar um marido e até mesmo poderia ter outros filhos com ele. Afinal, essa fora a solução encontrada pelo próprio pai dela! Ele deveria saber o que estava fazendo!
Quando se despediu do pastor, sentindo-se aliviado, nem pensou em despedir-se de Miriam que nunca mais viu. Ela não voltou ao Curso Normal.
Continua...
Escrito por ozeca às 12h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
|

|
|

|