CONSIDERAÇÕES (MINHAS) SOBRE A FLIP
Logo no primeiro dia, tive o prazer de conhecer a Dora e seu marido Luis, que se mostraram muito mais simpáticos do que por e-mail ou telefone. Foi um encontro daqueles em que a conversa flui e se torna difícil fazer parar. Até na hora da despedida a gente vai esticando o braço, sem conseguir soltar o abraço carinhoso. Dá vontade de ficar juntos o tempo todo. Ontem mesmo, entre caldos, vinhos e muito papo, fomos agraciados com o som da Karina e do Gui, que eu mesmo convidei para a cantoria. E o prazer se estendeu até a madrugada, que nos forçou a separação. Estavam também a Ana, adorável irmã da Dorinha e sua amiga Zélia, também agradabilíssima.
Enquanto eu me deleito com acompanhia deles, a FLIP vai transcorrendo, num clima de festa e de encantamento.
Eu não tenho participado das palestras nem dos shows, pois acabo tendo palestrantes e artistas ao vivo, na galeria e o papo sempre rola descontraído, agradável e proveitoso.
Não consigo pedir autógrafos, mas sei que deveria! Afinal, não é sempre que estamos na presença de grandes autores. Mas todos têm seus pontos fracos e esse tipo de timidez é um dos meus. Mas a presença deles, ao vivo e a cores, apreciando e comentando as obras de arte da galeria, já me deixa bastante satisfeito.
A abertura oficial da FLIP aconteceu com uma palestra de Roberto Schwarz, uma das maiores sumidades em Machado de Assis, traçando um perfil do homenageado, o bruxo do Cosme Velho. Ele se baseou em Dom Casmurro, comparando a loucura que é capaz de ser provocada pelo ciúme e terminando com o questionamento sobre o que deveria Bentinho ter feito a Capitú. Ele discorreu sobre os ciúmes, sobre as classes sociais, sobre o poder patriarcal e até sugeriu três formas de leitura da obra: uma romanesca, outra patriarcal e policial e, por fim, de efeito contra a corrente, cujo narrador é o próprio réu. Sobre a possível influência de José de Alencar sobre Machado de Assis (sempre reconhecida pelo último), Schwarz disse que o homenageado sempre a usou para mostrar ao próprio Alencar a forma correta de se fazer literatura.
A psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco, lançando o livro “A Parte Obscura de Nós Mesmos: Uma história dos Perversos”, disse que, de certa forma, o Brasil está presente em seu livro, pois foi numa conferência em Belo Horizonte, em 2004, que surgiu a inspiração para esse livro, que trata de perversão vista como parte fundamental da sociedade. Ela procura ultrapassar a questão do bem e do mal, que considera intrínsecos ao homem. Em sua conferência, ela enfatizou Sade, o Nazismo, o terrorismo islâmico extremista, a zoofilia e a pedofilia, um dos grandes males que tanto nos preocupam na atualidade. Segundo ela, o sentimento de prazer pelo mal está ausente do mundo animal, que não sentem prazer com a morte ao contrário do homem. Ela chegou a tocar temas controversos como os mitos de mal e de perverso que, com o passar do tempo, perderam essa qualidade, como homossexuais, mulheres histéricas e crianças que se masturbam. Tudo isso, que antigamente era condenado e punido pela sociedade como algo perverso, não é mais, já que ficou claro tratar-se de um erro de julgamento.
O traçado feito por ela entre literatura e psicanálise mostra bem os limites entre o bem extremo e o mal extremo, dando como exemplos “O Retrato de Dorian Grai” (Oscar Wilde), a mais incrível fábula sobre perversão e “Metamorfose”(Franz Kafka), com a linda alma do homem monstro.
Amanhã ou depois tem mais...